ROGÉRIO BELDA, Assessor Técnico da Diretoria de Planejamento e Expansão dos Transportes Metropolitanos da Companhia do Metrô de São Paulo
Em entrevista exclusiva à CBTU, Rogério Belda fala da rede de transporte nas cidades brasileiras. Com anos de experiência no Metrô de São Paulo e duas vezes Presidente da Associação Nacional de Transporte Público – ANTP, o entrevistado de hoje fala com propriedade das questões sobre o setor de transporte brasileiro, e destaca a necessidade de uma rede de transporte integrada em detrimento à valorização de um único modal.
"É preciso ficar claro que o trem e o metrô não existem para formar uma rede de trilhos, mas sim para formar uma rede de transporte".
Segundo Belda, tanto o ônibus municipal, quanto o ônibus intermunicipal tem necessidade, para ser eficiente, de se integrar com a rede de alta capacidade representada pelos metrôs e trens. Ele alerta que “pela nossa legislação o sistema de ônibus metropolitano intermunicipal e o sistema de ônibus municipal não se misturam. Mas através do sistema sobre trilhos é possível ter uma rede global de transporte das cidades”.
Belda é muito afirmativo quanto à necessidade da integração entre os diversos modais nas cidades, através da formação de uma rede. “Essa rede não é unicamente de trilho, ela tem que ser uma combinação com os outros modos de transporte, eu diria até de uma forma mais enfática com todos os outros modos de transporte”. Ele não descarta o automóvel nessa rede, “a integração com ônibus é essencial, mas tem formas de integração com automóvel, seja por estacionamento, seja pela passagem rápida e também a integração com bicicleta, principalmente no setor ferroviário”.
A seguir, leia na íntegra a entrevista concedida durante o VII Seminário Metroferroviário da ANTP, no final de março deste ano, no Rio de Janeiro.
CBTU A Cidade nos Trilhos: Qual é a sua visão sobre o transporte urbano de passageiros nas cidades brasileiras?
Rogério Belda: As cidades brasileiras são muito diferentes. Digamos, nas cidades com menos de cem mil habitantes é quase que circunstancial ter ou não ter uma linha de ônibus, as pessoas tem formas muito mais fáceis de se deslocar. Para as cidades acima de um milhão de habitantes isso muda radicalmente de figura. Passou de um milhão de habitantes a situação fica muito diferente, são metrópoles e essas metrópoles necessitam de redes de transporte. E essas redes de transporte não são baseadas em uma única modalidade. Tem que ter uma combinação de modos de transporte para obter uma maior eficácia no atendimento. O sistema sobre trilhos é muito importante pela sua alta capacidade e ele tem relação com o sistema de menor capacidade, em que o ônibus em via comum é o exemplo mais corriqueiro. Mas no Brasil, pela legislação, existe o ônibus municipal e o ônibus intermunicipal das regiões metropolitanas, são administrações diferentes, que mudam, que não se entendem e que muitas vezes prejudicam a continuidade. Então, o sistema sobre trilhos de certa forma é o amálgama dessa rede metropolitana. Porque tanto o ônibus municipal, quanto o ônibus intermunicipal tem necessidade para ser eficiente, de se integrar com a rede de alta capacidade representada pelos metrôs e trens. É uma característica das nossas cidades muito importante e que deve ser considerada no seu planejamento.
CBTU A Cidade nos Trilhos: Quais são as perspectivas e os desafios para o transporte sobre trilhos nas cidades brasileiras nos próximos anos?
Rogério Belda: O aspecto principal é que isso precisa ser uma rede. E essa rede não é unicamente de trilho, ela tem que ser uma combinação com os outros modos de transporte, eu diria até de uma forma mais enfática com todos os outros modos de transporte. A integração com ônibus é essencial, mas tem formas de integração com automóvel, seja por estacionamento, seja pela passagem rápida e também a integração com bicicleta, principalmente no setor ferroviário, das estações mais afastadas. Há muitos trabalhadores que vão de bicicleta e guardam no bicicletário, quando não tem bicicletário guardam as bicicletas amarradas em postes, árvores e seguem o seu destino de trem.No caso de São Paulo, nos finais de semana, é possível a integração bicicleta metrô com finalidade de lazer. Não é tido como integração, mas o andar a pé é uma forma de deslocamento, e assim uma modalidade de transporte. A própria área do trem e do metrô é uma área de integração do pedestre com o sistema. É uma forma de prolongar a caminhada a pé, de forma mais eficiente tendo o auxilio do sistema de tração elétrica. O essencial para essas grandes cidades é uma rede de transporte que proporcionará um melhor resultado, um maior desempenho. E isso não é só por causa do passageiro. O passageiro precisa se deslocar e precisa ter um mínimo de conforto, mas as cidades precisam desse funcionamento do sistema de transporte. Só é metrópole eficiente, metrópole mundial, quando puder dispor de um sistema de transporte de passageiros também eficiente.
CBTU A Cidade nos Trilhos: O que falta para termos transporte sobre trilhos nas cidades brasileiras?
Rogério Belda: Faltam diversas coisas. Primeiro, falta fazer parte da pauta política, e só estará na pauta política quando isso for também uma preocupação da população. Quase nunca o transporte ferroviário é percebido nessa função a que eu me referi, ele não é propriamente o valor em si, ele é importante na medida em que ele ajuda o sistema de ônibus a ser mais eficiente, assim como o sistema de transporte ajuda o pedestre a se deslocar com mais eficiência na cidade. É preciso ficar claro que o trem e o metrô não existem para formar uma rede de trilhos, mas sim para formar uma rede de transporte. E institucionalmente ainda tem uma outra característica que eu já citei, mas vou repetir porque é importante, ele pode tanto fazer integração tanto com ônibus metropolitano quanto com ônibus municipal. Pela nossa legislação o sistema de ônibus metropolitano intermunicipal e sistema de ônibus municipal não se misturam. Mas através do sistema sobre trilhos é possível ter uma rede global de transporte das cidades.
CBTU A Cidade nos Trilhos: Seria o caso do trem rápido entre Rio e São Paulo?
Rogério Belda: Eu estava pensando em cidades, a minha experiência maior sempre foi do transporte urbano, do transporte metropolitano. O trem rápido entre as cidades, as metrópoles brasileiras, é algo que vai acontecer. Eu não me atreveria a dizer se vai ser em dois, três ou quatro anos porque são dois condicionantes: um é ter o recurso, capital, para essa aplicação; e o outro, é a existência da própria demanda, quando eu digo demanda não é a demanda física das pessoas, é a demanda de necessidades de maior intercâmbio entre essas cidades, certamente primeiro entre São Paulo e Rio, depois vão ter outras cidades, e geralmente se pensa de uma maneira isolada, mas acontece que a nossa rede de grandes capitais são: São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Brasília. Elas são uma rede de transporte que envolve rodovia, o transporte aéreo e a comunicação - as pessoas não se deslocam, mas deslocam mensagens. E isso vai chegar num nível tal que a ligação também como transporte rápido ferroviário vai fazer parte dessa grande malha de comunicação. E por isso eu digo vai ser primeiro entre Rio e São Paulo, por que são as duas grandes metrópoles brasileiras. Mas certamente depois vai ter Belo Horizonte e vai ter Brasília. Dizer quando, eu não seria capaz. Ele está prometido para breve, mas todos esses grandes projetos dependem de uma conjunção de muitos fatores: ter capital, a existência de um problema efetivo, e existência de fornecimento em termos que sejam adequados para o Brasil e também de uma certa percepção da importância dessa solução por parte da própria sociedade.
Meus Amigos,
"É preciso ficar claro que o trem e o metrô não existem para formar uma rede de trilhos, mas sim para formar uma rede de transporte".Segundo Belda, tanto o ônibus municipal, quanto o ônibus intermunicipal tem necessidade, para ser eficiente, de se integrar com a rede de alta capacidade representada pelos metrôs e trens. Ele alerta que “pela nossa legislação o sistema de ônibus metropolitano intermunicipal e o sistema de ônibus municipal não se misturam. Mas através do sistema sobre trilhos é possível ter uma rede global de transporte das cidades”.
Belda é muito afirmativo quanto à necessidade da integração entre os diversos modais nas cidades, através da formação de uma rede. “Essa rede não é unicamente de trilho, ela tem que ser uma combinação com os outros modos de transporte, eu diria até de uma forma mais enfática com todos os outros modos de transporte”. Ele não descarta o automóvel nessa rede, “a integração com ônibus é essencial, mas tem formas de integração com automóvel, seja por estacionamento, seja pela passagem rápida e também a integração com bicicleta, principalmente no setor ferroviário”.
A seguir, leia na íntegra a entrevista concedida durante o VII Seminário Metroferroviário da ANTP, no final de março deste ano, no Rio de Janeiro.
CBTU A Cidade nos Trilhos: Qual é a sua visão sobre o transporte urbano de passageiros nas cidades brasileiras?
Rogério Belda: As cidades brasileiras são muito diferentes. Digamos, nas cidades com menos de cem mil habitantes é quase que circunstancial ter ou não ter uma linha de ônibus, as pessoas tem formas muito mais fáceis de se deslocar. Para as cidades acima de um milhão de habitantes isso muda radicalmente de figura. Passou de um milhão de habitantes a situação fica muito diferente, são metrópoles e essas metrópoles necessitam de redes de transporte. E essas redes de transporte não são baseadas em uma única modalidade. Tem que ter uma combinação de modos de transporte para obter uma maior eficácia no atendimento. O sistema sobre trilhos é muito importante pela sua alta capacidade e ele tem relação com o sistema de menor capacidade, em que o ônibus em via comum é o exemplo mais corriqueiro. Mas no Brasil, pela legislação, existe o ônibus municipal e o ônibus intermunicipal das regiões metropolitanas, são administrações diferentes, que mudam, que não se entendem e que muitas vezes prejudicam a continuidade. Então, o sistema sobre trilhos de certa forma é o amálgama dessa rede metropolitana. Porque tanto o ônibus municipal, quanto o ônibus intermunicipal tem necessidade para ser eficiente, de se integrar com a rede de alta capacidade representada pelos metrôs e trens. É uma característica das nossas cidades muito importante e que deve ser considerada no seu planejamento.
CBTU A Cidade nos Trilhos: Quais são as perspectivas e os desafios para o transporte sobre trilhos nas cidades brasileiras nos próximos anos?
Rogério Belda: O aspecto principal é que isso precisa ser uma rede. E essa rede não é unicamente de trilho, ela tem que ser uma combinação com os outros modos de transporte, eu diria até de uma forma mais enfática com todos os outros modos de transporte. A integração com ônibus é essencial, mas tem formas de integração com automóvel, seja por estacionamento, seja pela passagem rápida e também a integração com bicicleta, principalmente no setor ferroviário, das estações mais afastadas. Há muitos trabalhadores que vão de bicicleta e guardam no bicicletário, quando não tem bicicletário guardam as bicicletas amarradas em postes, árvores e seguem o seu destino de trem.No caso de São Paulo, nos finais de semana, é possível a integração bicicleta metrô com finalidade de lazer. Não é tido como integração, mas o andar a pé é uma forma de deslocamento, e assim uma modalidade de transporte. A própria área do trem e do metrô é uma área de integração do pedestre com o sistema. É uma forma de prolongar a caminhada a pé, de forma mais eficiente tendo o auxilio do sistema de tração elétrica. O essencial para essas grandes cidades é uma rede de transporte que proporcionará um melhor resultado, um maior desempenho. E isso não é só por causa do passageiro. O passageiro precisa se deslocar e precisa ter um mínimo de conforto, mas as cidades precisam desse funcionamento do sistema de transporte. Só é metrópole eficiente, metrópole mundial, quando puder dispor de um sistema de transporte de passageiros também eficiente.
CBTU A Cidade nos Trilhos: O que falta para termos transporte sobre trilhos nas cidades brasileiras?
Rogério Belda: Faltam diversas coisas. Primeiro, falta fazer parte da pauta política, e só estará na pauta política quando isso for também uma preocupação da população. Quase nunca o transporte ferroviário é percebido nessa função a que eu me referi, ele não é propriamente o valor em si, ele é importante na medida em que ele ajuda o sistema de ônibus a ser mais eficiente, assim como o sistema de transporte ajuda o pedestre a se deslocar com mais eficiência na cidade. É preciso ficar claro que o trem e o metrô não existem para formar uma rede de trilhos, mas sim para formar uma rede de transporte. E institucionalmente ainda tem uma outra característica que eu já citei, mas vou repetir porque é importante, ele pode tanto fazer integração tanto com ônibus metropolitano quanto com ônibus municipal. Pela nossa legislação o sistema de ônibus metropolitano intermunicipal e sistema de ônibus municipal não se misturam. Mas através do sistema sobre trilhos é possível ter uma rede global de transporte das cidades.
CBTU A Cidade nos Trilhos: Seria o caso do trem rápido entre Rio e São Paulo?
Rogério Belda: Eu estava pensando em cidades, a minha experiência maior sempre foi do transporte urbano, do transporte metropolitano. O trem rápido entre as cidades, as metrópoles brasileiras, é algo que vai acontecer. Eu não me atreveria a dizer se vai ser em dois, três ou quatro anos porque são dois condicionantes: um é ter o recurso, capital, para essa aplicação; e o outro, é a existência da própria demanda, quando eu digo demanda não é a demanda física das pessoas, é a demanda de necessidades de maior intercâmbio entre essas cidades, certamente primeiro entre São Paulo e Rio, depois vão ter outras cidades, e geralmente se pensa de uma maneira isolada, mas acontece que a nossa rede de grandes capitais são: São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Brasília. Elas são uma rede de transporte que envolve rodovia, o transporte aéreo e a comunicação - as pessoas não se deslocam, mas deslocam mensagens. E isso vai chegar num nível tal que a ligação também como transporte rápido ferroviário vai fazer parte dessa grande malha de comunicação. E por isso eu digo vai ser primeiro entre Rio e São Paulo, por que são as duas grandes metrópoles brasileiras. Mas certamente depois vai ter Belo Horizonte e vai ter Brasília. Dizer quando, eu não seria capaz. Ele está prometido para breve, mas todos esses grandes projetos dependem de uma conjunção de muitos fatores: ter capital, a existência de um problema efetivo, e existência de fornecimento em termos que sejam adequados para o Brasil e também de uma certa percepção da importância dessa solução por parte da própria sociedade.
Meus Amigos,
mais importante que esta minha entrevista é a entrevista provocativa e prospectiva do Plínio Assmann na "Série GTDU" sobre metrópoles e transporte (acima). Acessem as demais entrevistas no endereço:
Nenhum comentário:
Postar um comentário