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21/12/2007

Adão & Sebastião: A autêntica Engenharia Brasileira

Em 1977 já se usavam métodos avançados na prospecção do subsolo.

O texto a seguir é de autoria do colega Nestor Soares Tupinambá, conhecido contador de causos metroviários, também publicado na revista do Instituto de Engenharia - IE.

Foi por volta de 76 ou 77 que, no Metrô, tentávamos prospectar o subsolo do Vale do Anhangabaú, para implantar a futura estação metroviária. Esta fora solicitada pelo então prefeito Olavo Setúbal, de surpresa, já que não havia sido prevista.
Sabíamos que o Córrego do Anhangabaú era formado pelos córregos do Saracura e do Itororó e seguia à jusante pela R Ernesto de Souza Nazaré, o genial compositor de Odeon e outros magníficos chorinhos ! Todo este sistema estava em galerias, algumas muito antigas, e tínhamos que decifrá-lo já que, nos verões, a Praça das Bandeiras submergia quando de chuvas intensas. Os enormes vasos do edifício Touring Club ficavam submersos. E o velho porteiro do edifício nos garantia que com chuvas intensas ficava curiosa a situação ali, pois só as plantas ficavam sobrenadando no caudal, tal como plantas aquáticas. E, dizia ele, que os nutrientes de possíveis esgotos, misturados com a água de chuva, deixavam-nas com muito viço. Adotamos então a cota do topo do vaso, somada a 50 cm, como nossa “Cota de Inundação” para trabalharmos “secos”, ali.
Propusemos, então, pioneiramente, à PMSP um reservatório de acumulação, construído de maneira a se incorporar com a obra, inspirados em obra parecida, em Chicago, que eliminara, com um desses reservatórios, as inundações dos Grandes Lagos naquela cidade. Mas a sugestão foi recusada e tivemos que cobrir a vala da obra com placas de concreto, calafetando todas as suas juntas. E passamos incólumes às tempestades de uns dois ou três verões.
Mas não conseguíamos “fechar” o cadastro das águas pluviais, nem tampouco dos esgotos sanitários, que se apresentavam em inúmeros tampões nos vales. O problema era que, segundo os cadastros, muitos destes tampões haviam sido recapeados e escondiam-se sob o asfalto.
Conversando com dois antigos limpadores das galerias da, então, Regional Centro, o Seu Adão e o Seu Sebastião, que sempre nos ajudavam, pois sabiam de memória toda a configuração das redes de águas pluviais no centro de São Paulo, apareceu um fato novo! No desânimo de não saber como sair do problema, nós três, contemplando silenciosos o vale, ouvi um diálogo em baixa voz, meio envergonhado - ”Adão vamos propor o sonar?”com a resposta -”cala a boca Sebastião!”.
Interessei-me, surpreso com o tal do sonar e pedi explicações. Dias depois fomos ao Anhangabaú para a sua utilização.
Sebastião e Adão andavam pelo Vale, no meio dos carros, e diziam: ”era mais ou menos por aqui que ficava o tampão!”
Dito isso um deles deitava-se, com o ouvido no asfalto, enquanto o outro ia até o tampão mais próximo, visível, com uma enorme marreta. Chegando nesse tampão desferia potentes marretadas no ferro até que o seu parceiro “auscultando” o asfalto percebia as vibrações e dizia:”é aqui!”.
Marcávamos o local com tinta e voltávamos de madrugada com rompedores de pavimentos.
Abríamos o pavimento e, em 95% dos casos, achávamos os tampões!
Assim, com a sensibilidade e criatividade desses dois funcionários, deciframos as redes locais, desviamos as galerias, ou reforçamo-las (caso da maior, próxima à Rua Formosa que, situada sobre o shield foi transpassada com um tubo de aço de 2;00m de diâmetro que deixou-a íntegra durante os anos de obra). Aliás, deve estar lá se o aço não foi, ainda, corroído... E como o número de Manning reduziu-se, com o uso do aço, ficou um trecho de ótima vazão!
Quando um deles disse-nos que deveria se aposentar consultamo-lo se poderia ficar mais uns meses, para que terminássemos o cadastro. Com sua concordância oficiamos à Prefeitura pedindo a sua permanência e elogiando o trabalho da incrível dupla “Adão & Sebastião” tendo conseguido o intento.
Adão e Sebastião, até parece nome de dupla de cantores sertanejos e tal como elas (as verdadeiras, aquelas de “Cavalo baio” e “Menino da porteira”) camuflam, na sua simplicidade, o amor pelo que fazem e a grande sensibilidade que possuem, em sua visão da vida e do trabalho.
E não foram, senão estas, as qualidades que nos permitiram trabalhar naquele lugar, então tão trafegado e com enorme gama de redes no subsolo, com rapidez e segurança.
Desconfio que os grandes engenheiros tenham, além de sua formação acadêmica, uma boa “dose” de “Adão & Sebastião”!
Infelizmente as escolas não conseguem ensinar essas qualidades. Vai de cada um e da sua percepção e consciência.

Gostou da história? Veja em vídeo, contada pelo próprio Tupinambá, no link abaixo.




E o “causo” tem a parte 2, contada no vídeo:


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