Carlos Alberto Jansen Mercante
Roberto Shibuya
Sydnei Lourenço Duarte
Apresentaremos a seguir um aspecto importante de conservação dos trens do Metrô-SP, que, internamente, costumamos chamar de “Sopra de Trens”. Por se tratar de uma importante etapa no processo de manutenção dos trens, foi rebatizada de “Limpeza Técnica dos Trens”. Neste processo nota-se uma evolução de uma atividade voltada para obter um bom desempenho do equipamento até incorporar melhores práticas ambientais e de saúde do funcionário.
Introdução
Os trens do Metrô são constituídos de equipamentos mecânicos (mancais, rodeiros, caixa), elétricos (motores de tração, motores geradores, ventiladores, indutores) e eletrônicos (diodos, tiristores, capacitores, resistores).
Esses equipamentos, em sua maioria, possuem filtros que retém parte da poeira que fica depositada na via comercial; poeira esta composta de pó de pastilha de freio (resultado do atrito entre o disco de freio e a pastilha, quando da frenagem no modo freio pneumático), pó de escova do motor de tração, pó de ferro (originado, principalmente, pelo contato roda e trilho), fios de cabelos, entre outros.
Durante a circulação dos trens, a poeira depositada no leito da via ou em suspensão no ar é sugada para o seu interior, sendo que parte desta fica retida nos filtros e outra parte se acumula no interior desses equipamentos, interferindo diretamente no desempenho destes.
Desde o início do Metrô percebeu-se a necessidade de efetuar a limpeza dos equipamentos, com o objetivo de se desconcentrar o pó em equipamentos específicos, reduzindo assim a possibilidade da ocorrência de falhas, já que o pó, dependendo do tipo de equipamento e onde se instala, pode ser responsabilizado por, gerando aumento de temperatura, baixa isolação, e alta concentração de pó e cabelo no interior dos trens sobre os usuários.
Histórico
Nestes mais de trinta anos de Metrô, o processo de limpeza dos trens foi-se modificando, partindo de uma condição precária no início, evoluindo e, chegando aos dias de hoje com uma condição muito boa para os empregados diretamente envolvidos na atividade, população vizinha e meio-ambiente. Toda essa evolução só foi possível devido aos seguintes aspectos:
1- Preocupação constante do Metrô com a saúde e segurança dos seus empregados,
2- Conscientização dos empregados em relação à sua saúde pessoal,
3- Leis mais rígidas,
4- CIPA e Segurança do Trabalho atuantes, servindo como agentes fiscalizadores,
5- Evolução tecnológica.
A seguir, apresentaremos as diversas fases de evolução do processo de limpeza com ênfase nos aspectos de logística, interferência com a população local, equipamentos de proteção individual (EPI) envolvidos e sistema/equipamentos utilizados na tarefa.
1ª FASE –
A sopra era efetuada dentro do bloco de manutenção (tipo um galpão), aproveitando o trem de programação preventiva, no horário das 11h20m até às 11h50m, período de almoço dos demais empregados.
Eram soprados equipamentos do sob-estrado e caixa dos carros utilizando ar-comprimido, o que acarretava em uma nuvem de poeira no interior do bloco de manutenção. Tal poeira se dispersava no ar indo se depositar em outros equipamentos do trem, chão do bloco, salas administrativas e oficinas.
Os empregados responsáveis pela sopra do trem utilizavam os seguintes EPI's: macacão de tecido lavável com gorro, máscara panorâmica com filtro, bota, luva de PVC e abafador de ruído.
Após a sopra e antes do fim do horário de almoço, era efetuada uma varrição por empregados da limpeza, procurando minimizar a poeira depositada no chão.
Empregados contratados efetuavam a limpeza no interior dos carros, convivendo com as atividades de manutenção preventiva, efetuada pelos empregados do Metrô, objetivando disponibilizar o trem para o horário de pico da tarde.
2ª FASE –
Após algum tempo convivendo com a sopra dentro do bloco de manutenção, iniciou-se um estudo com o intuito de se diminuir a dispersão do pó dentro do bloco.
Foram confeccionados dispositivos para serem adaptados aos diversos equipamentos do trem que, em conjunto com uma linha de aspiradores de pó, seriam responsáveis pela aspiração do pó dos equipamentos durante a passagem do ar comprimido.
Vários dispositivos foram adaptados aos diversos equipamentos, principalmente as máquinas rotativas (motores e geradores) e bloco semicondutor.
Tal processo foi efetuado algumas vezes, mas os problemas encontrados superaram os benefícios obtidos. Entre eles podemos citar:
- A quantidade de pó diminuiu muito pouco em relação ao esperado; a principal razão encontrada foi a irregularidade dos equipamentos do sob-estrado que impediam uma perfeita sucção, gerando uma elevada perda de carga,
- Aumento do ruído quando do acionamento dos aspiradores,
- Alta quantidade de Hxh gasto na preparação para sopra, além da dificuldade na instalação destes dispositivos
3ª FASE –
Diante das dificuldades de se conseguir uma melhor alternativa a curto prazo, resolveu-se tomar algumas medidas de caráter emergencial, enquanto não se concluía o estudo definitivo.
De imediato a sopra foi transferida para o período noturno, sendo executada das 23h30m à 0h30m, período em que a quantidade de pessoas no bloco é reduzida.
Além desta alteração, foram tomadas as seguintes medidas:
- Mangueira de sopra com restrição na saída,
- Aumento da periodicidade de sopra de alguns equipamentos,
- Lavagem da vala após a sopra pelo pessoal da contratada.
Estas medidas provocaram uma melhoria substancial nas condições do bloco para a grande maioria dos empregados pelo fato de trabalharem no período diurno.
4ª FASE –
Um grupo de trabalho formado por representantes da gerência, engenharia, manutenção de trens e segurança do trabalho apresentou trabalho propondo uma mudança radical no processo de sopra.
A partir desta data a sopra passou a ser uma parte de um processo maior “batizado” de limpeza técnica.
Tal processo passou a ser centralizado no EPB (linhas 1, 2 e 3), sendo executado pelo MRL , no período diurno (7h30m às 16h30min), com uma equipe formada por um encarregado, um eletricista e sete ajudantes, na vala de manutenção da Linha 14.
O novo processo diferenciava do anterior apresentando aspectos positivos e outros negativos. A seguir passo a descrever alguns destes aspectos:
- Sistema de ar mandado, com autonomia para três empregados simultâneos e sistema de segurança no caso de falha de compressor.

- Baixa autonomia e aquecimento constante obrigando a aguardar seu resfriamento.
- EPI's constituído de um macacão com capuz, reutilizável e inflado com ar-mandado.

- Necessidade de banho para retirada das partículas agregadas ao macacão, para sua reutilização no dia seguinte.

- Não utilização dos trens nos picos da manhã e tarde.
- Dificuldade da GOP em entregar e retirar o trem do EPB nesses horários.
- Nuvem de pó atingindo outras áreas do EPB.
- Problemas ergonômicos reclamados pelos empregados.
Grandes melhorias e dificuldades foram experimentadas nessa fase. Para cada dificuldade identificada foi formado um grupo de trabalho, com objetivo de se minimizar ou eliminar essas dificuldades.
5ª FASE – Situação atual
Nesta fase foram implantadas uma grande quantidade de melhorias, resultado de um trabalho conjunto e sério, entre todas as áreas da gerência de manutenção, diversas áreas do METRÔ, CIPA, Sindicato e empresas externas; resultando hoje em uma atividade segura para todos os empregados.
Como exemplo dessa parceria posso citar o capuz desenvolvido exclusivamente para essa atividade, que passou por inúmeras modificações até culminar no modelo atual.
A seguir, descrevo os principais aspectos da limpeza técnica hoje aplicados:
- Trabalho executado no período noturno, das 21h30m às 4h30m, na vala de manutenção da Linha 14 e bloco de manutenção segregado,
- Utilização de sistema de ar-mandado com capacidade para seis pessoas simultâneas, além de sistema de back-up, com sistema de segurança acionado automaticamente ou remotamente pelo empregado,
- Utilização de roupa especialmente desenvolvida, composta por capuz descartável com capacete e sistema de segurança ( apita no caso de ar-mandado insuficiente), cinto com regulagem da quantidade de ar ( cada empregado regula a seu gosto), macacão descartável de material semi-permeável, bota e luva.
- Execução de atividades de limpeza em determinados equipamentos utilizando pano, aspirador de pó e espátula,
- Execução da lavagem do trem, pelo pessoal da contratada, no estacionamento do EPB, logo após a liberação do trem pela manutenção,
- Liberação dos trens para o pico da manhã e o pico da tarde.
Conclusão
O processo de limpeza técnica evoluiu de uma simples sopra, executada no bloco de manutenção, para uma atividade realizada em local específico, com equipamentos e EPI´s especialmente desenvolvidos, se tornando referência de mercado.
O sucesso foi obtido ao se aliarem forças de diversas áreas do Metrô-SP visando o melhor desempenho técnico da tarefa, associado ao respeito pela saúde dos empregados e das pessoas no entorno e repeito ao meio-ambiente.
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