Carlos Alberto Augusto Nogueira
Júlio Andrade de J. Filho
Paulo Sérgio Amalfi Meca
Todos nós da comunidade metroviária sabemos da grande repercussão que tem sido a utilização dos softwares livres no Metrô de São Paulo, tendo, inclusive, virado “case” de sucesso na administração pública no Brasil. Redução de custos, boa qualidade, autonomia tecnológica e compartilhamento do conhecimento foram alguns dos argumentos utilizados para a substituição de programas e pacotes proprietários que, além de cobrar pelas licenças de uso, não permitiam modificações ou adaptações pela falta de acesso ao seu código fonte.
O que a grande maioria não sabe é como nasceram os primeiros embriões, as primeiras iniciativas de uso dos softwares livres por alguns usuários de diversas áreas da empresa e que, posteriormente, foram efetivamente implantadas a nível corporativo. É isso que eu (Paulo Meca), Carlos Nogueira e Júlio Andrade pretendemos contar a vocês neste espaço. Vamos à história:
Por volta de 1995, eu era supervisor da equipe de projetos de sistemas elétricos, vinculada à Gerência de Projeto de Sistemas, e vínhamos desenvolvendo, já há cerca de 2 anos, um plano que chamávamos de “Repasse de Conhecimento”, onde quem conhecia mais profundamente um determinado assunto técnico, repassava esse conhecimento aos demais colegas da área de maneira formal, através de um pequeno curso (tinha até apostila!). Esperava-se, com essa iniciativa, que o conhecimento de cada um não ficasse restrito só a ele e, com isso, todos da equipe cresceriam tecnicamente. Além disso, já havia, nessa época, uma grande preocupação com a perda de conhecimento pela aproximação da aposentadoria para alguns colegas que estavam no Metrô desde a época de implantação da primeira linha.
Bem, vocês devem estar se perguntando: e onde o software livre se encaixa nessa história? Então vamos em frente:
Tínhamos, nessa época, uma workstation de fabricação Sun no nosso departamento que, a princípio, havia sido adquirida uns anos antes dentro do Plano de Automação da Engenharia (PAE), que alguns de vocês devem se lembrar, para servir como estação de trabalho para uso com o Autocad Overlay, numa versão para sistema operacional Unix/Solaris. Ocorre que a versão do Solaris já estava ultrapassada e não havia previsão de recursos (R$) para atualizá-la (época de vacas magras em termos de orçamento no Metrô).
Foi então que um colega nosso, o Mantovani, apareceu com a primeira versão do sistema operacional Linux, algo muito novo e sobre o qual eu já havia lido, mas confesso que tinha pouco conhecimento. Começamos a estudar mais a fundo o sistema operacional e decidimos, depois de algumas semanas, instalá-lo para testes na workstation da Sun. Antes de fazer isso, até para que pudéssemos conhecer melhor o sistema operacional, decidimos instalá-lo primeiramente num PC (se não me engano era um 486) e fazer um duplo “boot”. Passamos a conhecer melhor o Linux e a trocar informações com a comunidade.
Descobrimos, em conversas informais, que havia outras pessoas dentro do Metrô que também estavam testando o sistema operacional. Surgiu, então, em 1996, a idéia de promover, internamente à nossa área, um mini-curso sobre o sistema operacional. Como o Mantovani era quem mais conhecia sobre o assunto, pedi a ele que preparasse o material didático e as aulas.
O que inicialmente era para ser divulgado apenas na nossa área, rapidamente chegou aos ouvidos de colegas de outras gerências e resolvemos, então, estender o convite para outras áreas. Para nossa surpresa, fomos procurados por pessoas da própria área de TI pedindo para participar do curso, pois diversos deles também ainda não dispunham de conhecimento mais profundo sobre o Linux.
Para que vocês imaginem o nível de adesão, tivemos que reservar o auditório do Metrô I para o curso. Foi um sucesso.
Para o último dia do curso, conseguimos agendar uma palestra de um dos diretores da Conectiva (hoje Mandriva-Conectiva, resultado da aquisição feita em 2005 pela empresa francesa Mandrake). A Conectiva era uma empresa com sede em Curitiba, que foi a pioneira na distribuição do Linux e código aberto em português, inglês e espanhol para a América Latina. Para a palestra, abrimos o convite mesmo para quem não havia participado do curso de Linux e, como resultado, tivemos o auditório lotado, com gente de pé.
Foi nessa apresentação da Conectiva que tivemos contato, pela primeira vez, com o StarOffice, suíte para escritórios de uso também gratuito já naquela época (desenvolvido por uma empresa alemã chamada Star Division) e que rodava sob Linux. A prova de que o StarOffice iria emplacar mais cedo ou mais tarde, era que também participava do seu desenvolvimento (como colaboradora) nada mais nada menos que a Sun Microsystems, que em 1999 viria a comprar a própria Star Division para não pagar mais as licenças de uso de MSOffice à Microsoft para os seus quase 42.000 computadores.
Quando o StarOffice foi apresentado pela Conectiva, muita gente, inclusive da área de TI, torceu o nariz. Lembro-me dos comentários de pessoas que hoje estão entre os maiores defensores do OpenOffice: “isso está me parecendo um chamariz para que as empresas migrem para um software gratuito e, quando você estiver dependente dele, aí eles começam a cobrar pelo uso e pelas atualizações”, “duvido que alguma empresa, em sã consciência, embarque numa aventura dessas”.
Terminado o curso de Linux, resolvemos instalar o StarOffice para testes na workstation do nosso departamento (ainda não havia versão gratuita para Windows, por isso não podíamos instalá-lo nos nossos desktops). Encontramos muitas dificuldades e muita resistência, e não havia suporte da área de TI nessa época. Fomos, por diversas vezes, desencorajados a continuar, mas não desistimos.
Felizmente, o tempo se encarregou de mostrar que não estávamos sonhando alto com a implantação de softwares livres. Com o corte dos subsídios por parte do Governo do Estado e a necessidade de alcançar o equilíbrio entre receitas e despesas, em 1998 o Metrô dava, efetivamente, o primeiro passo com a implantação do Metromail, nosso correio eletrônico, totalmente montado sobre softwares livres. Além disso, como o próprio Gustavo Mazzariol já citou em diversas palestras e artigos que escreveu sobre o assunto, quando o Metrô passava por grave crise financeira no ano de 1999, a equipe de TI resolveu ir à caça e começou a testar uma versão do StarOffice que poderia substituir o pacote MSOffice na empresa, em razão dos altos custos do contrato de licenciamento com a Microsoft. O resultado todos já sabem, hoje o OpenOffice é o nosso padrão de suíte para escritórios, gerando uma economia de algumas centenas de milhares de reais ao ano para os cofres do Metrô.
Bem, para finalizar, gostaríamos de deixar registrado que o nosso objetivo, neste artigo, foi mostrar que temos que ser persistentes quanto a idéias inovadoras. Embora não sejamos da área de TI e não tenhamos sido os responsáveis diretos pelo grande êxito obtido pelo Metrô na implantação dos softwares livres, acreditamos ter colaborado para despertar a curiosidade de muitos colegas e ajudado a aumentar o conhecimento sobre esse assunto. Nossa percepção é que pequenos embriões de iniciativas inovadoras precisam ser vistos com bons olhos e incentivados, pois podem trazer grandes resultados para a empresa, ainda que demorem a vingar.
Confira uma entrevista sobre este assunto abaixo.
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