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01/10/2009

Pessoal, segue mais uma sobre empreendedorismo do jornalista Adriano Silva

A grande migração dos empreendedores

Há uns meses perguntei a uma amiga empreendedora, que já lançou vários produtos, que já faliu algumas vezes, que já fundou mais de uma empresa, se não sentia saudade do mundo corporativo, por onde havia passado bem no iniciozinho de sua carreira. Perguntei se não sentia vontade de ter uma vida mais estruturada, mais tranquila em certo aspecto, depois de tantos anos na trincheira do empreendedorismo, com tantos altos e baixos, tantos picos e vales. Ela sorriu e me disse: "conhecendo esse meu jeito, quanto tempo você acha que eu ia durar dentro de uma empresa?" Eu achei aquela uma declaração para lá de interessante. Será que existem mesmo dois DNAs de gente nesse mundo, quem nasceu para ser executivo, para gerir o que já foi criado, e quem nasceu para ser empreendedor, para viver de correr riscos e criar novos negócios onde antes não havia nada?
Por esses dias, estive com um baita executivo. Que está saindo de uma baita companhia, onde foi diretor de marketing por quase uma década. Um cara com perfil empreendedor, que vive pela inovação, para criar, buscando jeitos novos e melhores de fazer as coisas. Ele me disse coisas interessantíssimas.
- O que mais lhe incomoda são as amarras corporativas. São os comitês, as reuniões, as necessidades de amarração, consenso e validação numa grande empresa. As coisas são decididas pela média e não pela ponta. A solução é sempre a mais política, a mais "segura", a que melhor se encaixa diante dos interesses (não raro conflitantes) de todos os departamentos envolvidos. A solução nem sempre é, portanto, a melhor. Às vezes sequer é a menos pior.
- O teto é baixo. "Na vida corporativa, você tem um espaço para atuar que é definido pelo tanto de talento e competência que a companhia acha que você tem". Ou seja: enquanto aqui fora, no mundo cão, o céu é o limite se você for bom e souber fazer, lá dentro, no relativo conforto das cadeiras altas, você tem uma jurisdição que é definida à sua revelia e que é sempre limitante para quem tem ambições maiores.
- Aversão ao risco. As grandes empresas são mantenedoras. Tem um modelo de negócios que é ou foi vitorioso, operam num paradigma que é ou foi seguro, e fazem o que podem para não mudar, para permanecer exatamente onde sempre estiveram. Só que num mundo veloz, em que ficar parado significa caminhar para trás, angustia aos criadores essa ausência de permissão para tentar e testar novos modelos. Muitas vezes defender o sucesso de ontem e até mesmo de hoje, por mais lógico que isso seja, pode implicar a destruição do sucesso futuro.
Por tudo isso, ele me disse que estava muito cansado, desestimulado. Que estava ruim acordar todo dia e vir trabalhar. Que as segundas-feiras eram um suplício. Que eram poucos os desafios do seu dia a dia que ainda lhe davam prazer. Ao fim do papo, ele me disse que via no caminho do empreendimento uma cenoura definitiva: a real geração de valor. "Você pode deixar um negócio para os seus filhos, ainda que nem tenha sido assim tão bem sucedido assim à frente dele. Você não pode deixar um carreira executiva como herança, por mais bem sucedido que você tenha sido com ela".

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